daquelas histórias com começo irrelevante e fim incerto:

daquelas histórias com começo irrelevante e fim incerto:

deitada na cama, com as cobertas até o pescoço, ela descansava. quem visse até diria que ela estava em paz, calma, até mesmo feliz. ela acordou com um sorriso bobo, mesmo que não tivesse aberto os olhos, como se essa noite fosse a melhor de sua vida. faziam dias que ela acordava assim. tendo sua mente notando isso, virou de barriga para cima e começou a pensar no que havia acontecido no dia anterior. branco total. se lembrou então do seu amor, de como ele acordava ela com um sussurro. esperou, em vão, esse sussurro antes de abrir os olhos.

alguns minutos depois, se lembrou. ele não estava ali. faziam dias que ele não estava ali para acordá-la, muito menos para fazer companhia. ele saíra de sua vida como se tal ação fosse tão mundana quanto o voo de uma borboleta. o sorriso foi se esvaindo e ela não estava mais em paz. abriu os olhos. tudo veio em sua mente. os problemas, as brigas, os ressentimentos e a vontade enorme de ter feito tudo de forma diferente. se lembrou também dos litros de bebida alcoolica que havia ingerido no dia anterior, e isso a fez notar a violenta dor de cabeça, mas não se incomodou. sabia que havia feito isso por muitos dias, então a dor se tornara um costume, se não a tivesse, estaria preocupada.

criando coragem para sair da cama, viu que tudo a sua volta gritava o nome daquele que foi um dia o mais importante para ela. ela conseguia ver as expressões de desprezo que todos os objetos tinham em relação à ela, pedindo urgentemente a presença dele. se olhou no espelho como um lamento. ela era linda, divertida, extrovertida, seu melhor passatempo era ir para as baladas, tudo isso se foi, deixando-a com a imagem de uma garota derrotada e cansada, que desistira de se aventurar, de falar alto com alguém ou de amar alguma pessoa que não fosse de sua família. “sou ridícula” ela pensava, “se ele estivesse aqui, com certeza estaria ouvindo palavras e palavras de incentivo”. lá estava ela de novo, pensando nele. “ele NÃO está aqui e ele NÃO vai vir. pare de pensar nisso” era sempre sua reação automática para aqueles pensamentos.

se dirigiu para a cozinha, a fim de tomar algum remédio para a dor de cabeça. reparou que a casa estava um lixo, com roupas espalhadas pelo chão e garrafas de bebidas jogadas ao chão como brinquedos de uma criança que teve preguiça de guardá-los. o ar estava pesado e ela sabia que o mesmo estava mostrando para ela que tudo é diferente quando ele não está por perto, e que não voltará nunca a ser. ela podia sentir cada molécula de oxigênio passeando no contorno de seu corpo conforme ela andava, rindo de sua cara, sentindo desprezo, dificultando cada pensando bom de penetrar em sua pele. chegando na cozinha, viu que os remédios de ressaca eram inexistentes, já havia duas caixas vazias. ótimo, nada poderia ficar melhor. o dia estava lindo, as crianças estavam lá fora brincando, o sol estava chamando todos para uma festa na piscina e tudo isso parecia encorajá-la a ficar na cama e nunca mais acordar. queria dormir para sonhar com ele, para ter a esperança de acordar com o sussurro, e talvez esse sussurro a fizesse mudar o rumo de sua vida atual.

“quero viver você”

ela escutou o sussurro. pensou que estava imaginando coisas mas sentiu uma mão acariciando seu ombro como quem diz “tudo isso passa”. assustada, ficou paralisada, não sabia o que fazer. a esperança de tê-lo atras de si, reconfortando-a, era tão grande que ela não queria deixar esse momento nunca. queria parar a vida, e ficar ali, escutando coisas que não devia e sentindo coisas que não existiam.  depois de alguns minutos, a única coisa que sua mente conseguiu elaborar foi “ele está aqui, comigo.”

“sempre.”

foi um sussurro leve, entorpecente, longo e calmante, que a fez estremecer. “ele lê a minha mente. ele está aqui. ele sabe!”. animada, ela se virou para vê-lo. nada a fez mais triste que o momento em que contemplou, calmamente, a parede de sua cozinha. nada disso era verdade. ela teria que viver sem ele, sem uma ajuda qualquer, sem um sorriso qualquer. estaria no desespero por muitas semanas ainda e vá deus saber quando voltaria a trabalhar. além disso, estava um lixo, de ressaca todos os dias, e nunca se sentira tão humilhada e desapontada em sua vida. sua mente estava a mil, pensando em todas as coisas ruins que ela teria que enfrentar. todo mundo faz isso, todo mundo se vê na pior situação algumas vezes. foi quando chegou nesse pensamento que escutou, novamente:

“tudo muda..”

e o ar ficou mais leve, deixando para ela sentir apenas os seus sentimentos emergindo novamente.

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