Hell Paris 75016

Hell Paris 75016

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Sair aos risos com os amigos e perceber por um milésimo de segundo que por dentro estou horrível. Te ver saindo, aos risos, com os amigos, é algo que dói só de falar. Minha garganta se fecha, minha respiração fica quase nula, meu coração acelera. Eu perco a noção do certo e do errado, eu perco qualquer linha de pensamento que me parecia útil e calmante. Eu preciso ver o céu, as piadas, a diversão, as danças, as pessoas em minha volta, todo mundo se divertindo, mas eu só vejo você, você bebendo, você dançando, você rindo com alguém, com uma garota, com uma garota que não sou eu, em um lugar onde eu não estou. Eu fecho os olhos tentando perceber que tudo não passa de ilusão, mas minha imaginação é mais rápida e logo consigo sentir em mim as suas mãos no corpo de outra. Eu consigo sentir cada espinho entrando em meu corpo conforme te vejo longe de mim, se divertindo com outra. Eu escuto seus pensamentos, suas risadas, aquelas linhas premeditadas que você sempre dizia para mim.

Quando abro os olhos me vejo com raiva de você pela imagem que eu mesma criei. Me vejo me arrumando, com cada detalhe superficial me deixando mais e mais bonita, mas não para você, para outro. Me vejo com uma roupa berrante que praticamente diz que quer ser retirada o quanto antes por outras mãos. A maquiagem pesada, a raiva pulsando em minhas veias como sangue, cada fibra do meu ser desejando ser de outro cara, outro cara porque você já não me pertence, porque você eu já não quero, porque você foi estúpido comigo em minha própria imaginação.  Saio de casa, me vejo sozinha. Me vejo bebendo, me vejo causando muito com as amigas que te odeiam, com as pessoas que nunca nos quiseram juntos. Me vejo dançando com outros caras, esses que eu tenho certeza que nem o nome eu sei e nem vou querer lembrar. Me perguntam se tenho namorado. Namorado? Isso é coisa para quem não se sente bem consigo mesma. Meu sorriso convence todo mundo de que estou bem, de que estou querendo algo mais do que música alta e bebida na mão.  Sou patética. Sou? Pois então você também é, você que não está aqui, que não está me abraçando, que está ficando bêbado e distraído com qualquer outra que não seja eu. Que não seja minha imagem. Vendo minha alma e coloco a culpa em você.

Porque tudo é mais fácil quando a culpa é de outra pessoa. E é ainda mais fácil quando se está com raiva, quando se está irritada. Você me perdeu antes mesmo de ter feito alguma coisa, é o que você quer que eu entenda. Eu entendo apenas que você ia fazer de uma forma ou de outra. Meu corpo não é seu, não é de ninguém, nem mesmo meu. Como pode ter dono quando nem minha alma nele habita? Como pode ser propriedade de alguém quando nem para isso ele vale alguma coisa? Sou usada, sou incompreendida, faço drama e tento ganhar algo com isso. E ganhei.  A vergonha.

(escrevi depois de ler o livro citado no título)